30 de janeiro de 2013

MARIO QUINTANA / A arte da Palavra


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Mario Quintana / 1906-1994

Poeta sul-rio-grandense, buscando sempre uma poesia simples e despojada, publicou mais de uma dezena de livros, entre eles A Rua dos Cataventos, em 1940, e Esconderijos de tempo, 1980.

Seus livros foram ferramentas de aprendizagem de literatura nos meus tempos de escola, nível secundário e médio.


PAUSA.

Quando pouso os óculos sobre a mesa para uma pausa na leitura das coisas feitas, ou na feitura de minhas próprias coisas, surpreendo-me a indagar com que se parecem os óculos sobre a mesa.

Com algum inseto de grandes olhos e negras e longas pernas ou antenas?

Com algum ciclista tombado?

Não, nada disso me contenda ainda. Com que se parecem mesmo?

E sinto que, enquanto eu não puder captar a sua implícita imagem-poema, a inquietação perdurará.

E, enquanto o meu Sancho Pança, cheio de si e de senso comum, declara ao meu Dom

Quixote que uns óculos sobre a mesa, além de parecerem apenas uns óculos sobre a mesa, são de fato, um par de óculos sobre a mesa, fico a pensar qual dos dois – Dom
Quixote ou Sancho? > vive uma vida, mais intensa e, portanto mais verdadeira...

E paira no ar o eterno mistério dessa necessidade de recriação das coisas em imagens, e para terem mais vida, e da vida em poesia, para ser vivida.

Esse enigma, eu passo a ti, pobre leitor.

E agora?

Por enquanto, ante a atual insolubilidade da coisa, só me resta citar o terrível dilema de Stechetti:

“ Io sonno um poeta o sonno um imbecile?”
Alternativa, aliás, extensiva ao leitor de poesia...

A verdade é que minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele.

E daí?
- Mas o melhor – pondera-me, com sua voz pausada, o meu Sancho Pança - , o melhor é repor depressa os óculos no nariz.

MARIO QUINTANA.

Mais uma vez, preenchendo esse espaço para minha querida mãe, e não deixar a "peteca" cair, 
Ricardo Leite, Analista de Sistemas. 


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