8 de abril de 2009

> Os dois lados da minha profissão

Desde muito criança convivi com inúmeros episódios de doença em minha família, eu ficava mais na casa da vovó e minha irmã com outra família, porque minha mãe querida passava muitos dias internada em hospital de outra cidade próxima de onde morávamos, para recuperar-se das suas cirurgias, que ao todo totalizou 13 (treze) número do azar mesmo, porque nesta última encerrava seu ciclo de sofrimento nesta passagem da vida. Em 1979, no início do ano, ela começou a ter náuseas e vômitos, depois dores no hipocondrio superior direito, o que nos fez levá-la ao hospital e nesta consulta o médico solicitou uma Ultrassonografia de abdome total (exame sofisticado há 30 anos) e foi realizado por um amigo que havia se formado médico e adquirido a tal máquina. Já no dia seguinte levamos mamãe ao consultório e como nos conhecíamos desde escola primária nos entendíamos por olhares, e naquele momento o meu amigo e médico era uma pessoa só, triste, como uma gota de lágrima no canto dos olhos. O diagnóstico, contou-me em sigilo era o pior possível: Cancer de pâncreas com tumor no fígado, e daí para frente passou praticamente a morar no hospital, não foi possível nem quimioterapia ou radioterapia, era esperar o tempo passar e dar a ela uma pequena minimizada no sofrimento com medicamentos caros que meu pai ia buscar em São Paulo, e consumia com nosso dinheiro. A alimentação tinha que ser uma dieta especial caríssima, ela comia e nós tomávamos água. Ficamos todos doentes. Raros eram os dias que eu me alimentava decentemente, trabalhava numa empresa multinacional, era assistente contábil, e esperava todos almoçarem para ver se sobrava alguma coisa para eu comer. Minha irmã havia se demitido de um emprego onde era secretária executiva para ficar com mamãe. Nunca reclamei disso, hoje sinto orgulho de todo sacrifício que fiz por ela e por muitas outras pessoas a quem faço até hoje. Nada perdi, ganhei muito. Larguei meu emprego burocrático logo após a morte de mamãe, e fui estudar Enfermagem, eu precisava saber cuidar de pessoas doentes, ter carinho por elas, paciencia, doar-me. Já não me importava com salário, mas sim com a realização pessoal. O tempo passou, meu filho nasceu em 1982, cuidei dele sózinha, de mim, da casa, e do meu marido, sem precisar de mais ninguém, mesmo porque eu já nem tinha. Em 1984 começava uma nova etapa de sofrimento: o pai do meu filho ficou DIABÈTICO e no começo seguia as orientações médicas, mas depois veio o derradeiro diagnóstico irreversível: impotencia sexual. Isso acabou com a vida dele, qual o homem que aceita isso? caiu em depressão, tomava inúmeros medicamentos, estava sempre muito irritado e nervoso, até que largou toda a dieta e contraiu todas as sequelas, cegueira, polineurite, ferimento profundo em pés, insuficiencia renal, tendo que fazer hemodíalise em dias alternados, e finalmente pneumonia infecciosa com derrame pleural nos pulmões, que o levou a óbito. Nesse caso eu cuidei dele em casa, no hospital, dia e noite até o fim, não foi humilhado, não ficou largado numa cama de hospital sózinho, sujo e mal cuidado. Eu trabalhava num hospital só de convenios, e na minha cidade surgiu um concurso público para Secretaria da Saúde da Prefeitura, então fiz minha inscrição, passei no concurso, e desde então estou há 15 anos na rede pública. Trabalho com todo tipo de paciente, os mais pobres e carentes, e aqueles que apesar de terem convênio procura a nossa Unidade Básica porque somos referencia em tratamentos complexos. Até hoje graças a Deus não houve nenhuma perda de paciente dentro do nosso processo de tratamento. Aqui vou tentar explicar o que é os dois lados da minha profissão: muito bem, recebo um(a) paciente que me conhece como pessoa comum lá fóra, as vezes amigas(os) mesmo, e que vem procurar ajuda. Muitas vezes é necessário se expor na intimidade para obter a ajuda que necessita, nesse momento, eu sou a profissional e faço o procedimento necessário sem nenhum constrangimento, e procurando levar confiabilidade e discrição para não criar embaraços. Terminado o trabalho, procuro ajudar essa pessoa até a vestir-se se necessário, abro a porta e então me dirijo a ela, tratando-a pelo nome, fazendo as orientações de retorno ou não, e aí apareceu a colega, vizinha, amiga, com um abraço fraterno. Assim ficou definido a profissão e a amizade. Nenhum comentário se faz sobre o acontecido fora do local de trabalho, lá fóra eu sou a mulher normal como todas as outras. Assim tem que ser, dessa forma voce mantem o sigilo, respeito, confiança, e o trabalho flui normalmente. Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento a todos que respeitam a nossa profissão, que nos veêm como pessoas comuns, que trata o corpo e a alma sem preconceitos e com muito respeito.
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